Onetti: dois livros em ano de centenário

José Riço Direitinho

Há poucos meses, quando Vargas Llosa apresentava em Madrid, na Casa da América, o seu mais recente livro, os ensaios El viaje a la ficción. El mundo de Juan Carlos Onetti (Alfaguara), contou que um dia, corriam então os anos 60, dissera a Onetti que se esforçava por escrever todos os dias, com disciplina e com horário, ao que ele lhe respondeu: «Tu tens uma relação matrimonial com a literatura, […] a minha relação é adúltera.» Apesar de assim ter continuado a ser, o escritor uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994) teve talento que chegasse para criar um dos universos mais originais, pessoais e coerentes de toda a literatura em língua espanhola. Infelizmente, o seu reconhecimento como um dos grandes autores hispânicos tem sido lento. E para não destoar, também em Portugal não tem tido a atenção que lhe é devida por parte dos editores. Até há bem pouco tempo encontravam-se publicados, de uma extensa bibliografia, apenas dois romances: Junta Cadáveres (Bertrand, 1976, numa brilhante tradução de Pedro Tamen) e O Estaleiro (Edições 70, 1981).

Recentemente, e aproximando-se a data do centenário do nascimento de Juan Carlos Onetti (Julho de 2009), a Relógio d’Água publicou de uma assentada um romance, A Vida Breve (considerado o primeiro romance moderno da literatura latino-americana), e uma colectânea das suas melhores histórias, Um Sonho Realizado e Outros Contos (mais de 30 anos depois, Pedro Tamen voltou a traduzir Onetti).

O mundo literário criado pelo autor uruguaio é um nebuloso universo de sonhos interrompidos, de desejos por cumprir, bastas vezes carregado de pessimismo, fatídico, em que os personagens – geralmente afundados na preguiça, na inércia ou no desespero – têm arreigada a ideia de que façam o que fizerem, no fim serão sempre tragados pelo sentimento de frustração. O universo onettiano é visitado, não raramente, por personagens amorais, por indivíduos misóginos, por proxenetas e por prostitutas sem esperança, personagens que se movem já muito perto da loucura ou do abismo do suicídio (de onde se salvam recorrendo à fantasia e ao delírio). Esta dialéctica tantas vezes recorrente entre o mundo real e o imaginário, que serve como um caminho de fuga ao desespero dos personagens, parece ter sido inspirada na própria vida do autor, que encontrou na literatura um antídoto para o seu irremediável «pessimismo congénito». Para alguns autores, incluindo Vargas Llosa nos ensaios recentemente publicados, a obra de Onetti pode ser vista como uma imensa alegoria da frustração que foi viver na América Latina durante as décadas em que foi palco das sucessivas ditaduras militares. (O próprio Onetti foi encarcerado em 1974 – em 1975 exilou-se em Espanha, de onde nunca regressou – durante a ditadura de Bordaberry, por ter feito parte do júri de um concurso literário que premiou um conto que denunciava um torcionário).

A colectânea acabada de publicar inclui histórias como «Um Sonho Realizado», de 1941 (considerado o seu primeiro conto importante), «O Inferno tão Temido», de 1957 (o mais excepcional de todos eles, de uma estranha lucidez sobre a natureza do mal) e o famoso «A Casa na Areia», de 1949 (em que pela primeira vez surge o lugar mítico onettiano, a cidade de Santa Maria – à semelhança da Macondo, de García Márquez, ou da Comala, de Rulfo – que iria alargar a sua geografia literária no ano seguinte no romance A Vida Breve). Os traços da modernidade que são perceptíveis nos textos mais curtos de Onetti mostram-no um contista de grandes recursos técnicos e estilísticos; Vargas Llosa não hesita mesmo em pô-lo ao mesmo nível de Borges, Rulfo, Fitzgerald ou Faulkner (de quem Onetti é um evidente devedor).

Quando morreu, em Maio de 1994, em Madrid, havia anos que se recusava a sair de casa; não por problemas físicos, mas porque nada mais lhe interessava para além do que ali tinha: a mulher, a cadela, e os romances negros de Chandler e de Dashiell Hammett.