A Vida Breve e Um Sonho Realizado

Rui Lagartinho

Foi posto à venda em Espanha este mês um livro de Mário Vargas Llosa, El Viaje a la Ficción, em que o escritor peruano recorda os seus encontros com Juan Carlos Onetti e onde deixa bem patente que a sua escrita não seria igual se não tivesse lido e frequentado o uruguaio.

Depois de lermos A Vida Breve percebemos melhor a sinceridade da sua homenagem. A dele e de muitos outros que tornaram este romance publicado em 1950 uma obra seminal da literatura sul-americana, como Rayuela [O Jogo do Mundo], de Julio Cortázar, ou Pedro Páramo de Juan Rulfo.

A Vida Breve chegou antes dos outros e foi um terramoto: Juan Maria Brausen, publicitário falhado vive o pesadelo de ver sofrer a mulher Gertrudis a quem foi retirada uma mama. No apartamento do casal as paredes são finas, e este torna-se um primeiro ponto de fuga quando Brausen começa a escutar a vizinha do lado, Queca (é mesmo este o nome), uma prostituta para quem fabrica um cliente, Juan Maria Arce.

Fora de portas ficamos a conhecer outra das suas invenções, um futuro argumento de cinema, onde Dias Grey, médico, vende receitas de morfina à sedutora Elena Sala.

Este consultório funciona em Santa Maria, uma terra mítica de todo o universo onettiano, cruzamento extensíssimo de Buenos Aires e Montevideo. Uma terra sórdida, asquerosa, cheia de espaços decadentes, ruas mal iluminadas, ruínas de pedra e de homens, local onde desaguam Brausen, Arce, Grey e todos os personagens de A Vida Breve e de onde o próprio Onetti nunca mais sairá. As metamorfoses em Onetti são sofridas, angustiantes. Livres só na aparência, estão condenadas a errar num círculo negro. É como se a última fronteira, a imaginação, abrisse a porta ao último estertor numa viagem que resulta inútil porque condenada.

Existencialismo, puro e duro.

Em simultâneo com A Vida Breve, a Relógio d’Água fez sair uma colectânea de contos de Onetti, Um Sonho Realizado. Há textos anteriores e posteriores ao romance. A sua leitura encadeada permite confirmar obsessões, reconhecer universos e personagens mas também descobrir novas máscaras. Percebe-se também que esta estrutura de pequenas ficções, tijolos empilhados de uma forma mais ou menos aleatória, já se encontrava no romance, e que Onetti é coerente consigo próprio em cada desconcertante linha que inventa. As traduções de Miguel Serras Pereira e de Pedro Tamen estão à altura do desafio.