Vinicius Jatobá
O uruguaio Juan Carlos Onetti é um autor de difícil localização - apesar de ser um escritor de evidentes preocupações sociais, seu realismo possui soluções tão singulares que só Onetti escreve como Onetti no panorama latino-americano. Ele viveu num país limite, que beira a não existência; e sua obra tem a solidez da prosa de social, e ao mesmo tempo, o pé em certa atmosfera de sonho, beirando o fantástico.
Seus contos e romances da saga de Santa Maria são a radiografia da esperança e do delírio, são encenações do desejo - é Baldi caminhando através de seus possíveis outros numa tarde qualquer, é uma mulher pagando um grupo de atores para encenarem em carne e osso um sonho seu recorrente, é o narrador sem nome de Os Adeuses ocupando seu tédio com estórias sobre um forasteiro, é Brausen, personagem de A Vida Breve, fundando uma cidade imaginária para escapar das dores do amor, é o jovem Malabia mergulhado nos relatos que fotografias lhe sugerem, compondo e decompondo o rosto da única mulher que amou, e sofrendo com todas suas possíveis vidas e destinos.
Em Onetti, o passo não dado, o gesto não visto, a cicatriz inexistente - as personagens marcadas também por aquilo que poderiam ter sido, e muitas vezes vivendo na sombra desses desejos não realizados (ou até realizáveis).
Na galeria de personagens de Onetti é Larsen, o forasteiro, o criminoso, o marginal, que encenará por duas vezes, em dois romances centrais na obra de Onetti, o protagonismo desse sonhador diante do peso do mundo. Seus sonhos, no entanto, são pérfidos: o prostíbulo perfeito, com as mulheres adequadas - em Junta-Cadáveres encontra-se Larsen lutando por uma existência na cidade que logo o expulsará, aceito por suas autoridades num primeiro momento e depois desmantelado por uma campanha hipócrita e cínica; ou, depois, o "golpe" perfeito, o caminho mais rápido a respeitabilidade - em O estaleiro, a tentativa de casamento com a única herdeira de um empreendimento comercial, a sucessão rápida de uma gerência ocupada por um velho cansado demais para seguir adiante.
Junta-Cadáveres é um romance onde a partir de Larsen uma cidade inteira sonha e se preenche de sentido: os homens com suas fantasias eróticas, alguns encarando amores do passado; as mulheres se agarrando com mais fervor aos delírios religiosos; os políticos, os militares, os jornalistas, todos se reinventando num conflito cínico entre a moralidade e o movediço chão que sustenta o desejo.
A matéria de O Estaleiro é distinta: o mesmo Larsen que retorna à Santa Maria, cinco anos após sua expulsão, mas agora sozinho, e todo romance é a narrativa de uma luta pela reintegração desse homem diante dos olhares da sociedade que o marginalizou, que o pôs para fora. Seu plano de casamento, seu plano de existência aceitável, de trabalho honesto, de amor sincero - a encenação comovente de um auto-engano. Larsen tentando ocupar os anos que lhe restam com um sentido, com a consciência de que talvez seja tarde demais. A gerência do estaleiro é um posto respeitável, mas ele a tem numa economia arruinada; o amor é encenado pela mulher perfeita, até virgem, mas cujo estado mental lhe faz instável e distante; e o olhar da cidade lhe parece receptivo aos seus primeiros novos passos, para logo se revelar viciado demais para lhe enxergar de outro modo.
Mas Larsen está cansado demais para resistir, ou reiniciar por outro caminho - seu cinismo está gasto, sua força de vontade arrasada -, e lhe resta apenas voltar ao velho hábito de mentir a si mesmo: compartilha o sonho do velho Petrus, acredita na vitória face um fracasso evidente demais para ser evitado. O que o leitor acompanha é a frustrada luta da esperança de Larsen contra o ritmo cego da fatalidade. Mais uma vez Larsen se encontra no meio de uma rede de mulheres; no entanto, carece de controle que como cafetão tinha no romance anterior: Angélica Inés, mulher que Larsen deseja como possível esposa, é louca; a esposa de Gálvez, inacessível; e Josefina é uma mulher que só lhe traz recordações de um Larsen que deseja abandonar, uma máscara que não lhe serve mais.
O que resta é o caminho da autodestruição: se realmente é fatal seu destino miserável, que ele não seja determinado pela sociedade que o expulsou, mas sim pelos termos que escolheu para essa derrocada. A força de O Estaleiro nasce da consciência de que Larsen em momento algum se engana, apesar do que diz em conversas ou nas atitudes que toma, e que tem plena noção de que o caminho que segue será mais uma vez sua ruína, talvez até a definitiva. No entanto, mesmo assim, e apesar de todas as evidências, de toda sua experiência, Larsen resiste, Larsen luta, Larsen mente a si mesmo, até que, como o narrador descreve, o leitor o veja "respirar através de suas lágrimas" sozinho na imensidão enferrujada do estaleiro espectral.