Escrita fina. Liliana Reales sobre Juan Carlos Onetti

Wladimir Garcia

Talvez seja possível medir um bom livro pelas suas entradas e saídas, pelo que podemos escutar nele, pelas possibilidades de levantarmos os olhos e continuarmos escrevendo o lido. Esta porosidade nos anima a prosseguir nas dobras do texto, nos seus truques, jogos e enigmas. E daí para fora, para a experiência exterior, para a vida e seus acontecimentos. Ou seja, a entrar e sair do texto. A Vigília da Escrita: Onetti e a desconstrução, de Liliana Reales, recém-lançado pela Editora da UFSC, é um destes livros. Aparentemente, é um livro de crítica literária sobre dois romances do genial escritor uruguaio Juan Carlos Onetti, ao mesmo tempo em que atualiza pensamentos de filósofos tão importantes para as questões do nosso presente como Nietzsche, Heidegger e Derrida. Um festim trans-histórico. Ocorre que esta pluralidade que alimenta a concepção dialógica do livro, o cruzamento entre ficções filosóficas e ficções literárias, desliza para outras tantas possibilidades de leituras que emergem da estrutura lúdica do da obra (organizada em blocos que Liliana batiza de transferência e remissões). O livro abre-se para ser um livro  de sabedoria, ética ou política. Ou um livro de amor por teoria, superando, pela prática deste amor, a oposição redutora que separa teoria e prática.

Deveríamos ter tantas formas para quantos desejos houver na sociedade. Sendo um livro de desejo por aquele “mais-deum”, resultante da sensibilidade à ambigu?idade do signo, joga com o leitor, dividindo com ele sua potência de pensamento  e de produção de sentidos. Ou seja, convidando o leitor para uma vigília sobre a escrita e sobre os pensamentos que ela dá passagem.   

A forma que dá expressão a estes desejos no livro de Liliana é, gosto de dizer, uma escrita fina, minuciosa, mas forte e corajosa nos seus cortes críticos, nos seus deslocamentos ousados e nas suas expansões para o infinito, para o campo aberto da investigação criativa. O trabalho fino com uma forma que pesa as palavras e que pensa a existência, chama a atenção do leitor.

Neste sentido, as palavras iniciais do livro são muito interessantes para serem lidas por estudantes em geral, já que são um estímulo à aventura de ler sem estar preso aos significados estabelecidos a priori, mas abertos a um evento plural que está, de fato, presente na origem de todas as coisas. Diz Liliana: Ler Onetti é ter que realizar um certo desvio de um lugar, da “pátria”, da grei, ou seja, de uma série de seguranças, para iniciar (e iniciar-se em) um estado de vigília. Os seus textos não desafiam a interpretação como se houvesse uma chave hermenêutica com a qual, uma vez achada, fosse possível acertar o sentido e restabelecer o sossego do intérprete: eles demonstram que o processo interpretativo é infinito por direito. Por isso, eles também demonstram que um texto nunca será plenamente inteligível, remarcando a distância que separa a nossa interpretação do “objeto” de leitura, obrigando a entender que, em última instância, o objeto de leitura  é a própria leitura, deslocando, assim, a pergunta sobre o que o texto quer dizer para o que eu quero dizer quando estou ler. O texto, na sua materialidade opaca, nunca é simultâneo a quem o lê, nunca é transparente à leitura, nunca chegará a pertencer-nos.

Há, eu destaco, em A Vigília da Escrita, um belo jogo estrutural que faz os blocos de texto estabelecer um diálogo que pode ser ativado - e ampliado - a qualquer momento pelo leitor. Chamo a atenção igualmente, para o encontro heterogêneo entre Onetti e Derrida que o livro promove, brincando com o tempo e criando laços a partir dos eventos textuais. Atualizar o jogo desconstrutor entre nós tem implicações político-pedagógicas que aposta para formação de leitores independentes, já que, de certo modo, sem a experiência de um ato desconstrutor não é possível pensar criticamente. De fato, há no trabalho um questionamento do que seja literatura, leitura e escrita e, por contigu?idade, do que seja filosofia, mediante uma abertura dos processos interpretativos, ou seja, a reconstituição da armadura textual dos romances ao destituir os sentidos da sua esfera de propriedade. Tal como Liliana indica, trata-se de uma experiência de insatisfação que desafia a afirmação de uma essência. O literário é tomado na sua plena potência filosófica, atuando como uma falha em apresentar a verdade ou mantê-la. Daí o grande tema: o jogo desconstrutor que se dá na leitura da literatura entre a criação de formas do falso, a constituição de valores instáveis e a evidência de uma desordem discursiva que indica certo modo de pensar a literatura e a arte. O livro, portanto, não somente rearticula a desconstrução como processo, como também singulariza suas virtualidades na problemática existencial da dúvida e da abismalização interpretativa.

É por estes fatores, entre outros, que eu chamo o trabalho de inteligente e promotor de uma ética da criação crítica. Por inteligência, poderíamos entender aqui, como pensavam nossos modernos, o trabalho ordenador do espírito. Logo, inteligência não se confunde com erudição, com o mero verniz acadêmico, mas implica este trabalho de composição do espírito. Há, sem dúvida, erudição na escrita de Liliana, mas esta é contingente, invocada pelos problemas. Contudo, a marca maior do livro, sua inteligência, é que ele não cessa de fazer e promover composições, arranjos e leitura das coisas inscritas, mas não-ditas.

Liliana opera assim pela lógica do suplemento, avançando a partir dos temas e autores que traz para a discussão. Nesta ética da criação, que Nietzsche já nos indicava, o jogo da escrita promove um ato crítico que aproxima pensamento e vida, que fala de lições para a vida, tais como: o fundo falso da linguagem, as histórias que sempre existem dentro da história, o sequestro paródico dos gêneros, a crítica aos sistemas de certeza pelo jogo das falsas expectativas depreendidas da leitura de Onetti, a percepção da duração dos enigmas, no lugar de resoluções prontas, e, sobretudo, a necessidade, a um só tempo, política, ética, estética, da indecidibilidade habitar cada decisão.