Onetti

Rodrigo Alfonso Figueira

Confesso que Onetti chegou até mim - ou melhor, eu cheguei até ele - razoavelmente tarde. Creio que isso se deva àquela velha relação tempo x quantidade de obras importantes a serem lidas, que sempre acaba limitando a nossa descoberta de autores importantes, absolutamente indispensáveis. Com Onetti, a coisa funcionou mais ou menos assim. O fato é que comecei a lê-lo no final de 2007, mas ainda muito envolvido com seus contos, como El Infierno tan Temido, uma de suas narrativas curtas mais importantes. Ali descobri um escritor complexo, que ao mesmo tempo que investia de forma pesada na trama, tinha na complexidade do tempo uma das características pessoais mais evidentes. Os contos de Onetti não fluem na direção que esperamos. Ele avança, retorna, estaciona, volta a retornar, avança… e assim desnuda seus personagens, quase sempre sufocados por pesadas lembranças ou misteriosas dores que os ligarão para sempre.

Naturalmente, muito estimulado por seus contos, acabei buscando seus romances. Ontem acabei concluindo a leitura de  Deixemos falar ao Vento, de 1979, escrito enquanto ainda vivia em Montevidéu. Onetti levou cerca de uma década escrevendo esta obra, delineando cada traço de seus personagens, buscando a linguagem certa para colocá-los em cena. Era um escritor rigoroso, que primava pela linguagem, fazia dela uma aliada para jogar com o tempo. Em Deixemos falar ao Vento, ele nos mostra como um final pode ser tão bem trabalhado durante uma história razoavelmente longa. Avançar, retornar, avançar. Como descobrimos sobre Molina e sobre sua relação com Frieda à medida em que quebra o tempo em pedaços, insistindo em retornar ao passado quando o leitor deseja o contrário. Como sentimos o banzo de sua gente nas fictícias Santa María e Lavanda, do mormacento desespero da inutilidade de suas vidas, jogados na casa à beira da praia ou no velho e decadente prédio do mercado. Para que viviam? Molina para tentar ser o pintor que sonhara e Frieda para… para quê? Na orelha da edição que possuo, Flávio Moreira da Costa diz que os personagens de Onetti vivem sufocados em um marasmo. E pergunta: um marasmo nosso, uruguaio, latino-americano?

O fato é que, com sua estética e estilo, Onetti busca a definição deste homem, desta gente perdida num dos extremos de nosso continente. Somos todos sufocados. Vivemos sufocados. Pelas crises econômicas, pela violência, pelo desenvolvimento que não chega, pelos sonhos reprimidos, por um não-sei-quê sul-americano. Parece que a nós, latinos, nos cabe o papel de sofrer com mais romantismo, com um drama exacerbado. Não sei se Molina, Frieda, Olga e Quinteros sofrem de forma mais plástica. O fato é que, em algum momento, essa falta de ar que os envolve acaba envolvendo o leitor. E aí nos encontramos, dizemos que somos como cada um deles, cada um com suas dores. E nos tornamos, talvez, uruguaios, ainda mais latino-americanos, como dizia Flávio.

Juan Carlos Onetti deixa-nos um legado literário importante. De minha parte, acabei adquirindo em espanhol Tierra de Nadie e El Astillero. No entanto, a lista de sua obra é vasta. Um homem que não concluiu o ensino médio tornou-se um dos maiores escritores uruguaios do século XX. Para os que, como eu, demoraram a encontrá-lo, creio que ainda possam render uma homenagem ao grande uruguaio lendo sua obra.

Há uma lista completa de sua biografia em uma página na internet, que se denomina oficial. Oficial ou não, o conteúdo é bem interessante e servirá a todos aqueles que desejam um primeiro contato com o autor.